DIÁRIO DO NORDESTE - Caderno 3 - 05.09.2008
por Manoel Ricardo de Lima
Uma pergunta sempre pode ser ao contrário, ainda mais quando se trata de leitura e do que se pode ler, do quanto se pode ler, de como podemos ler, de como deveríamos ler etc. O repisado Ítalo Calvino em seu "Por que ler os Clássicos" diz que ler é apenas mais importante do que não ler, depois sai elaborando importâncias para um projeto subversivo de existência: a leitura. O mesmo Calvino no prefácio de seu romance interessantíssimo "Se um viajante numa noite de inverno" acalenta o leitor com uma possibilidade insuspeita de lugar no mundo, que uma preparação para a leitura é pestanejar um território e para cumprir este território só assumindo-o como um lugar e só impondo a este lugar uma política para a leitura.
Uma cena de leitura, gesto que em princípio pode ser aparentemente banal, a meu ver, é de fato a cena subversiva, porque tende ao desamparo e a uma demonstração de nossa mais delicada imprudência, ficamos apagados no meio de um turbilhão de movimentos desbaratados e velozes como que planejando o crime de lesa vida, o crime insensato de nossa mais precária condição, existir, de alguma forma.
A vida parece não caber numa cena de leitura, a cena de leitura parece não caber no mundo antes nem muito menos agora. O escritor argentino Jorge Luis Borges, mesmo cego, continuava acenando ao livro como a única potência para a felicidade: "Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo a minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da Enciclopedia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa – eu a senti como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver. E, no entanto, o livro estava ali. Eu sentia como que uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que dispomos, nós, os homens. (...) O livro é lido para eternizar a memória."
É este mesmo Borges quem abre uma coleção caprichosa da editora Globo, chamada de "Por que ler". Caprichosa porque plena de alguma vontade para além de apenas fazer tributo à prateleira mais próxima. Os títulos são simples, os livros vêm em cores únicas e a precisão de sua matéria é provocar uma necessidade para aquilo que sempre se pode não ler. Até agora, a coleção forma um pequeno quadrado dessa impostura: "Por que ler Borges", de Ana Cecília Olmos; "Por que ler Shakespeare", de Bárbara Heliodora; "Por que ler Dante", de Eduardo Sterzi e, por fim, "Por que ler Manuel Bandeira", de Júlio Castañon Guimarães. A coleção é coordenada por Rinaldo Gama e tem um certo charme para esta imprecisão do leitor com o livro, o que Wilson Bueno, leitor atento, chama de enlace e diz da animalidade desta relação: "E é de amor, sim, de indecifrável amor, o nosso enlace." Ao contrariar a pergunta, por que não ler cada um desses autores e cada um desses livros, e se nos lembramos de Borges, a partir do livro de Ana Cecília, tocamos o que disse dele Ricardo Piglia, que talvez o seu maior ensinamento tenha sido a certeza de que "a ficção não depende apenas de quem a constrói, mas também de quem a lê."
E se posso escolher entre estes quatro livros publicados até agora, fico com os de Eduardo Sterzi e Júlio Castañon Guimarães. O primeiro, poeta, escreveu tese sobre o "Vita Nuova", de Dante, e tem se dedicado a cumprir uma tarefa crítica muito interessante e ventilada sobre poesia contemporânea; e mais a mais para dizer numa paráfrase, esta tarefa só pode ser cumprida como uma tarefa da alegria ou para a alegria. O segundo, poeta e tradutor, pesquisador da Casa Rui Barbosa, já havia feito um livrinho sobre Manuel Bandeira para a deliciosa coleção dos idos de 1980, a "Encanto Radical", da editora Brasiliense, e confessa que por causa desse livrinho foi convidado para escrever este outro que lhe deu "muito trabalho e um imenso prazer". E como diz a Júlia Studart em texto sobre a cena de leitura e o livro como um gesto para a felicidade: "Um livro é aquilo que volta a acreditar na cena de leitura e no poder da ficção, numa mistura de esquecimento e lembrança daquilo que lemos e no livro como uma extensão da memória e da imaginação, como bem disse Borges."
Mas sempre, sempre, se pode não ler. Ler não nos melhora como seres humanos, somos incapazes de alterar a própria vida ou a vida de nosso mais tenro vizinho só porque lemos mais ou menos que ele, só porque acumulamos uma biblioteca sem tamanho dentro de nosso quarto mais arejado, só porque falamos adoecidos três ou quatro línguas, só porque conseguimos ler a última e saborosa tradução de Elsa Morante feita no Brasil antes de sua publicação, só porque nos debruçamos aos domingos no parapeito de nosso ego para sussurrar da sacada um poema de Andi Nachón etc. Ler pode não ser nada, pode ser a declaração descabida de nosso mais puro fracasso e, talvez por isso, pode ser também a nossa mais sincera potência para estar no mundo de outra forma, nosso mais incorporado desejo para uma experiência-limite. Assim, penso, é quando ler tem a ver com algo muito próximo do coração. E aí, você pode ir à casa dos novos, carinhosos e sinceros amigos perto da praia, tomar cerveja com eles, brincar com os cachorros que têm nome de abraço desviado – Linda e Dona –, sujar a roupa com a poeira do tempo, citar duas ou três coisas descabidas, dizer sete ou oito opiniões infundadas, não explicar nada e voltar pra casa feliz porque na vida sempre se pode escolher fazer alguma coisa com o coração. Visitar os amigos ou ler, por exemplo.
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