terça-feira, 16 de setembro de 2008

Os tankas de Wilson Bueno

DIÁRIO CATARINENSE - sábado - 13 de setembro de 2008

Escritor paranaense lança Pincel de Kyoto, compilação de 25 poemas feitos segundo a forma japonesa de versejar, que remonta ao século 7 por Júlia Studart e Manoel Ricardo de Lima
Escrever o tanka é um esforço de penetração em um estado natural do corpo com o mundo que a nossa perversidade ocidental tão desconfiada e matreira não engole fácil, ou melhor dizendo, engole muito atravessado. Nós, ocidentais, acreditamos com tanta cegueira em nossa desconfiança que aquilo que o olho vê ou aquilo que o olho não vê não faz diferença, que aquilo que os olhos conseguem comer, ou não, também não faz diferença. Somos perversos em nosso tanto faz, suspeitamos muito de nós mesmos e de tudo e desprezamos esse esforço. O tanka, com a sua prudência e o seu encantamento oriental, tem tantos séculos de vida (a forma do tanka remete ao século 7) e tanta distância de nossa percepção que parece manter longe demais a possibilidade de nos encontrarmos melhor com ele e com a sua síntese literal: o poema curto, tan (breve, curto) e ka (música, poe-ma).

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Por que não ler

DIÁRIO DO NORDESTE - Caderno 3 - 05.09.2008

por Manoel Ricardo de Lima

Uma pergunta sempre pode ser ao contrário, ainda mais quando se trata de leitura e do que se pode ler, do quanto se pode ler, de como podemos ler, de como deveríamos ler etc. O repisado Ítalo Calvino em seu "Por que ler os Clássicos" diz que ler é apenas mais importante do que não ler, depois sai elaborando importâncias para um projeto subversivo de existência: a leitura. O mesmo Calvino no prefácio de seu romance interessantíssimo "Se um viajante numa noite de inverno" acalenta o leitor com uma possibilidade insuspeita de lugar no mundo, que uma preparação para a leitura é pestanejar um território e para cumprir este território só assumindo-o como um lugar e só impondo a este lugar uma política para a leitura.
Uma cena de leitura, gesto que em princípio pode ser aparentemente banal, a meu ver, é de fato a cena subversiva, porque tende ao desamparo e a uma demonstração de nossa mais delicada imprudência, ficamos apagados no meio de um turbilhão de movimentos desbaratados e velozes como que planejando o crime de lesa vida, o crime insensato de nossa mais precária condição, existir, de alguma forma.